No início desta semana, fomos impactados por notícias e informações acerca da Fraternidade Sacerdotal São Pio X que anunciavam a consagração de quatro novos bispos sem mandato pontifício, prevista para a manhã de 1º de julho, em Écône, na Suíça. Mesmo após o pedido do Papa Leão XIV para que a cerimônia não fosse realizada, por meio do envio de uma carta, os lefebvrianos decidiram levar adiante o ato cismático das consagrações e, na data prevista, realizaram a cerimônia.

Logo em seguida, o cardeal-prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, cardeal Víctor Manuel Fernández, definiu, em documento oficial, a realização das consagrações como um “ato de natureza cismática” e, em uma nota explicativa, detalhou as consequências da grave sanção canônica. O documento decreta que os bispos da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, Alfonso de Galarreta e Bernard Fellay (respectivamente, sagrante principal e co-sagrante), bem como os bispos recém-consagrados Pascal Schreiber, Michael Goldade, Michel Poinsinet de Sivry e Marc Hanappier, incorreram ipso facto na excomunhão latae sententiae, reservada à Sé Apostólica.
Tal ação recorda momentos difíceis vividos outrora pela Igreja e aponta para a dor da ruptura, evocando a figura de São Francisco de Assis como modelo de obediência e unidade à Santa Igreja.
A vida de conversão de Francisco inicia-se no contexto da realidade eclesial. Após abandonar a casa paterna e despir-se em plena Praça de Assis, foi acolhido pelo bispo da cidade. Mais do que envolvê-lo em um manto, o bispo Guido percebeu sua coragem e, admirando o fervor e a firmeza de Francisco, reconheceu claramente que havia um desígnio divino naquelas atitudes. O homem de Deus trazia em si um mistério. Por essa razão, tornou-se seu auxílio e, animando-o e confortando-o, “abraçou-o com entranhas de caridade” (1Celano 15,3-5). Essa amizade foi cultivada por muitos anos. Guido tornou-se conselheiro de Francisco e de sua fraternidade e, quando a saúde do santo se agravou, em 1226, acolheu-o em seu palácio para que ali fosse cuidado.

Assim prossegue a caminhada de Francisco. Quando os primeiros companheiros se aproximaram, decidiram ir a Roma para implorar a bênção para a pregação do Evangelho, conscientes da existência de diversos grupos heréticos de seu tempo, como os cátaros e os valdenses, entre outros. Lá, Francisco foi surpreendido pelo sonho do Papa Inocêncio III, que havia visto um pequeno homem sustentar a Igreja quando esta ameaçava ruir.
Essa profunda ligação com a Igreja não paralisava Francisco diante das deficiências dos bispos e sacerdotes de sua época, nem diante da imagem de uma Igreja poderosa e imponente que então predominava. Ao contrário, impulsionava-o a viver, na obediência, o espírito original do Evangelho. Em seus escritos, essa postura aparece de forma explícita: “Bem-aventurado o servo que põe fé nos clérigos, que vivem retamente segundo a forma da Igreja Romana. E ai daqueles que os desprezam; conquanto sejam pecadores, no entanto, ninguém deve julgá-los, porque Deus reserva unicamente para si o direito de julgá-los” (Admoestação XXVI). Na Carta aos Clérigos, orienta a todos a “observar todas estas coisas de acordo com os preceitos do Senhor e as constituições da Santa Mãe Igreja” (2Cl 13). E, em seu Testamento, afirma que “o Senhor me deu e me dá tanta fé nos sacerdotes que vivem segundo a forma da santa Igreja Romana” (Test 6).
Assim, os textos das Fontes Franciscanas apresentam São Francisco como uma importante chave de leitura para a eclesiologia. Em meio a movimentos que optam por viver afastados da obediência, do Magistério e da autêntica Tradição da Igreja, Francisco oferece uma resposta de unidade e de fidelidade a uma Tradição continuamente iluminada pelo Espírito Santo.
Enquanto assistimos a movimentos que enfrentam a autoridade papal, fragmentam a obediência ao Sucessor de Pedro e mantêm oposição ao Magistério, especialmente às orientações do Concílio Vaticano II, São Francisco nos apresenta outro caminho. Vivendo em uma época marcada pelo poder e pelo prestígio da Igreja, escolheu a pobreza como forma de vida e compreendeu que seu próprio testemunho cristão deveria ser um sinal luminoso para toda a comunidade eclesial. Em vez de se separar ou se ausentar, permaneceu em comunhão, consciente de que deveria participar da reconstrução da Igreja, começando pela conversão da própria vida. Longe do egoísmo e dos caprichos pessoais, escolheu o caminho da minoridade e acreditou que é na fraternidade que Deus revela a sua vontade.
Ao professar obediência à Igreja Romana e ao Pontífice canonicamente eleito (Regra Bulada 1, 3), Francisco realiza um verdadeiro ato de fé, fundamentado na vivência radical do Evangelho e na valorização dos sacramentos, especialmente da Eucaristia. Seu estilo simples e marcado pela minoridade permanece uma resposta não apenas para o seu tempo, mas também para o nosso. Em contraste com os movimentos heréticos, foi junto da Igreja que Francisco buscou a aprovação de sua forma de vida, e esse testemunho continua sendo, ainda hoje, um exemplo de autêntica renovação. Francisco compreendeu que somente ama verdadeiramente a Igreja quem deseja reformá-la a partir de dentro, vivendo-a, experimentando-a e fazendo dela o lugar de sua fé. Foi permanecendo no coração da Igreja que conseguiu iluminá-la em seu tempo e continua, ainda hoje, a inspirar os seus fiéis e devotos a viverem com fidelidade e amor à Igreja de Cristo.
Texto: Roberto Alves – SerCom do Santuário.
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