O mês de julho inicia-se com a celebração de uma memória especial, que se estende por todo o mês: a do Preciosíssimo Sangue de Jesus. Essa devoção teve início no século XIX, com São Gaspar del Búfalo e seu empenho na propagação do culto ao Preciosíssimo Sangue. Ao longo do tempo, foi sendo reconhecida pela Santa Sé, recebendo Missa e Ofício próprios, até ser estendida a toda a Igreja, com a instituição oficial da celebração no dia 1º de julho.
Essa data nos convida a contemplar o sangue como sinal de vida. Ao voltarmos o olhar para o Cristo crucificado, cujo corpo traz o sangue derramado de suas chagas, nossa atenção deve concentrar-se no valor da humanidade redimida por Jesus, que se entregou inteiramente em sua Paixão. Diante do crucifixo, recordamos que somos diariamente lavados e purificados de nossas manchas, sendo chamados a nos tornar homens e mulheres renovados, empenhados em testemunhar o amor infinito de Deus por seu povo.
Toda a teologia em torno dessa festa esteve presente na tradição da Escola Franciscana. São Francisco de Assis convidava todos ao respeito e à reverência pelo Corpo e Sangue de Cristo, sinais visíveis do Filho de Deus, que desce do seio do Pai e, pelas mãos dos sacerdotes, vem ao encontro de seu povo sob as humildes espécies eucarísticas. São Boaventura, em sua Tríplice Via da vida espiritual, indica, na Via da Iluminação, que o caminho da clareza sobre a própria condição humana começa “primeiramente pelo gemido da oração, feita em nome de Jesus crucificado, cujo sangue nos purifica das manchas dos nossos pecados” (Itinerário da Mente para Deus, Prólogo, 4). O Doutor Seráfico chegou ainda a escrever uma oração na qual afirma que “uma única gota do vosso sacratíssimo sangue poderia bastar para a redenção de todo o mundo”.
Nessa mesma tradição franciscana, recordamos também o testemunho da terceira franciscana Santa Ângela de Foligno, que recebeu profundas visões do Sangue de Cristo. Conhecida como Mestra de Teologia, essa mística italiana, durante uma de suas meditações sobre a Paixão do Senhor, lembra do sangue precioso de Cristo, que derramado para conceder o perdão, une-se de modo extraordinário à experiência do amor divino. Para ela, embora a alma estivesse imersa em uma alegria sem lágrimas e sem a dor da paixão, a memória desse sangue jamais desaparecia; ao contrário, recordava constantemente o preço da redenção e servia de referência para aprender a viver conforme Cristo.

Na iconografia franciscana, São Francisco é frequentemente representado com os sinais da Paixão de Cristo. Em uma obra particularmente significativa, pintada por Carlo Crivelli entre 1490 e 1495, o santo aparece recolhendo o Sangue de Cristo. A composição destaca a profunda intimidade entre Francisco e o Crucificado, expressa no intenso encontro de seus olhares, que revela a proximidade do santo com o Amado e sua participação no mistério da Redenção.
Assim, longe de ser um elemento isolado da piedade cristã, a celebração do Preciosíssimo Sangue convida-nos a um compromisso concreto. Em um mundo onde tantos corpos continuam sendo supliciados e tanto sangue é derramado pela violência, pelas guerras e pelos desastres, os fiéis são chamados a fazer memória desse Sangue precioso, tornando presente sua força redentora, que lava os pecados da humanidade e logo somos convidados a manifestar o infinito amor de Deus que vence o ódio, as divisões, nos unindo por sua misericórdia.
Texto: Roberto Alves – SerCom do Santuário.
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