
“Finalmente temos a satisfação de consignar aqui o importante acontecimento da bênção da nova igreja, consagrada a Nossa Senhora das Dores, abrindo mais um espaço à expansão religiosa do católico povo desta paróquia.”
São estas as palavras registradas no 2º Livro de Tombo da Paróquia sobre a visita de D. Joaquim José Vieira, segundo Bispo do Ceará, a Canindé. Na ocasião, ocorreu a bênção do templo que, ainda hoje, pulsa no ritmo do coração dos canindeenses. Era o dia 2 de julho de 1886.

O tempo que nos separa daquela data já soma 140 anos. Talvez a alegria e o entusiasmo por possuir tão santo espaço em nosso meio permaneçam os mesmos. Neste 2 de julho, nossa memória se volta para a Igreja das Dores, como carinhosamente é conhecida. Sua história parece caminhar lado a lado com a devoção mariana na cidade.

Canindé, conhecida desde cedo por sua profunda espiritualidade franciscana, viu nascer, aos poucos, uma singular reverência à Virgem Maria não podendo ser diferente nem a parte da espiritualidade nascida do Coração de Francisco de ter um profundo respeito a “Virgem feita Igreja”. A Igreja das Dores tornou-se um dos principais símbolos dessa devoção. Desde a fundação da Irmandade de Nossa Senhora das Dores, passando pela construção e bênção do templo dedicado a esse título mariano, até o surgimento de novas expressões de piedade que fizeram da cidade um verdadeiro “Canindé Mariano”, o amor à Mãe de Deus foi encontrando cada vez mais espaço no coração dos fiéis e nos altares das residências.

Ainda hoje, a Igreja de Nossa Senhora das Dores pode ser considerada um dos edifícios mais antigos de Canindé que permanecem de pé sem alterações significativas em sua estrutura original. Entre o vibrar dos cantos e das preces durante o mês de maio e o silêncio que parece envolver o templo ao longo de boa parte do ano, suas paredes contam uma história e testemunharam importantes acontecimentos da vida religiosa e social da cidade.
Essa história pode ser narrada desde antes mesmo de sua construção. Em 1877, em meio à Grande Seca que assolou o Ceará, a futura igreja surgiu no horizonte dos sertanejos como um sinal de esperança. A seca marcou profundamente a região, agravando as condições econômicas e sociais da população. Nesse contexto, a construção do templo também representou uma iniciativa de caráter assistencial, oferecendo trabalho, alimento e condições de sobrevivência para muitos que sofriam com os efeitos da estiagem.

Ali também funcionou o primeiro cemitério público do município. O templo abrigou, durante anos, as imagens sacras de São Francisco, tornou-se Matriz Provisória enquanto a Basílica de São Francisco passava por reformas, acompanhou importantes transformações eclesiais e sociais e foi cenário de momentos marcantes da fé do povo. Nela aconteceram as primeiras coroações de Nossa Senhora, além de novenas, celebrações eucarísticas e da administração dos sacramentos. Hoje é a sede da Matriz da Paróquia de São Francisco das Chagas, sendo um ponto de encontro de fé para esta comunidade paroquial.
O que significa a dedicação de uma Igreja?
O rito da bênção, ou, mais precisamente, da dedicação de uma igreja, constitui um dos momentos mais significativos da caminhada de uma comunidade. Trata-se da consagração de um templo a Deus realizada pelo bispo de uma Diocese. Ao dedicar uma igreja, a comunidade oferece aquele espaço à Santíssima Trindade, tornando-o um lugar santo e destinado ao culto divino. A unção do altar e das paredes, a incensação, a iluminação da igreja e os demais ritos expressam o desejo da comunidade de dedicar uma nova casa de oração ao Senhor e suplicar que Ele permaneça presente com sua graça, tornando fecundas, pela ação do Espírito Santo, todas as celebrações e atos de culto ali realizados.

Entre uma rota e outra da romaria, a Igreja de Nossa Senhora das Dores continua sendo um espaço privilegiado para fazer uma pausa e deixar-se acolher pela Mãe. Seu coração, outrora transpassado pelas espadas da dor, permanece sensível às necessidades da humanidade. É um coração que guarda, que acolhe, que permanece de portas abertas e continua a pulsar no mesmo ritmo do coração de seus filhos e filhas.
Texto: Roberto Alves – SerCom do Santuário.
Fotos: Arquivo da Paróquia-Santuário de São Francisco das Chagas | PasCom da Paróquia de São Francisco das Chagas.
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