No Dia do Amigo, celebremos o vínculo que nos torna irmãos

O calendário nos faz lembrar hoje de nossos amigos e amigas. Durante toda a história, muito se buscou definir o significado e a importância de cada um em nossas vidas. Mas, em tempos de redes sociais, onde algumas pessoas se sentem confortáveis chamando seguidores de amigos e outras ficam chocadas com uma intimidade que não reconhecem, o sentido da amizade pode ser reduzido a números e likes. Podemos, assim, esvaziar os verdadeiros sentidos da palavra, cujo significado, por muitos anos, foi buscado, definido e vivido por tantos homens e mulheres.

Alguns significados mais antigos sobre esse tema encontramos entre os filósofos. Entre os mais conhecidos, como Platão e Aristóteles, encontramos o que parece convergir ao falar sobre amizade como uma “predisposição recíproca que torna dois seres igualmente ciosos da felicidade um do outro”. Agostinho de Hipona, por sua vez, lembrava que “o ser amigo nos funde na amizade do ser; os amigos são uma só alma”. Essas ideias iluminam o termo ainda hoje e motivam uma compreensão mais profunda do seu significado, tendo em vista que serviram de inspiração para tantos poemas e músicas que falam sobre amizade, como cantava Milton Nascimento, em sua Canção da América: “Amigo é coisa pra se guardar, debaixo de sete chaves”.

Perpassando por esses dados, podemos iluminar esta data a partir de São Francisco, um homem que cultivou a vontade de Deus por meio dos irmãos-amigos que o próprio Deus lhe concedia. A fraternidade sonhada e vivida por Francisco nasce de um coração amigo, que o jovem sempre carregou por meio de sua cortesia e sensibilidade para com os outros, a ponto de ser reconhecido como o “Príncipe das Festas de Assis”. Amizade esta que ele ouviu e cantou nos contos dos trovadores, os quais colocavam a amizade como uma relação de amor.

Diante das experiências religiosas do seu tempo, ao encontrar-se com o Evangelho na igrejinha da Porciúncula, junto com os primeiros companheiros, Francisco decide viver o Evangelho em fraternidade, ensinando, desde então, a superar a individualidade para celebrar a alegria de estar juntos. Juntos vão a Roma pedir a aprovação do Papa; juntos reconstroem igrejas; juntos partem em missão pelo mundo; e juntos compartilham os mesmos espaços. E isso é vivido de forma tão apaixonante que contagia outros, fazendo com que Francisco espalhe esse espírito para tantas pessoas que, mesmo ocupando outros espaços, reverenciam ainda hoje o santo como um modelo da tão sonhada fraternidade universal.

Esse modelo trouxe para perto da fraternidade franciscana Santa Clara de Assis, que, embora conhecesse Francisco apenas por suas pregações e de longe, parecia já ter sido reservada por Deus para aquela amizade desde o início. Reforçava-se, assim, a ideia dos antigos filósofos, que por vezes pareciam até ser uma só alma, sem ser possível ver Clara sem Francisco e Francisco sem Clara, como se completassem a missão um do outro. Bento XVI, em uma de suas catequeses lembrou que, “A amizade entre esses dois santos constitui um aspecto muito bonito e importante. De fato, quando duas almas puras e inflamadas pelo mesmo amor por Deus encontram-se, tiram da recíproca amizade um estímulo fortíssimo para percorrer a via da perfeição.”

Santa Clara e São Francisco de Assis.

O modelo de amizade de Francisco estendeu-se a outros lugares, como no relacionamento com a nobre Jacoba de Settesoli. Acredita-se que essa amizade tenha sido nutrida em uma das passagens do santo por Roma e que ele tenha aconselhado a jovem viúva a restabelecer um clima de paz com o Papa, já que seu falecido marido pertencia a uma poderosa família, marcada por conflitos com o papado. A força da amizade entre ambos é tão bela que algumas fontes franciscanas narram que a Beata Jacoba teria ouvido uma voz em suas orações que a apressava a ir a Assis encontrar Francisco, pois, se tardasse, não o encontraria mais vivo. A voz ainda lhe pedia que levasse consigo tecido para uma túnica, alimentos, cera para velas e incenso. Mesmo sendo proibida a presença de mulheres na clausura, Francisco chama Jacoba de “frei” e, como uma boa irmã-amiga, ela acompanha os últimos momentos de sua vida.

A forma de viver essa amizade inspirou ainda seus primeiros companheiros a escreverem uma legenda própria, conhecida como Legenda dos Três Companheiros, que narra, com beleza e leveza, a vivência daquele que se tornou um símbolo de fraternidade. Segundo alguns estudos, acredita-se que essa fonte tenha sido escrita por Frei Leão, Frei Ângelo e Frei Rufino, primeiros amigos, companheiros de missão e confidentes das realidades mais particulares do santo, que exaltaram com maestria a forma como Francisco viveu, desde antes de sua conversão até sua morte, propondo um caminho que pode ser vivido por todos. A relação fraterna de ambos foi vivida, testemunhada, escrita e, hoje, pode ser saboreada a partir da ótica da amizade.

Ao chegar ao final da vida e viver um processo de reconciliação com toda a criação, São Francisco nos aponta um caminho de retorno à amizade com Deus, amizade esta ferida pela real concepção de pecado mortal, que nos afasta, nos ensoberbece e nos faz querer ocupar o lugar do Criador. Ao retornar ao jardim tão sonhado, São Francisco nos mostra que a vida é mais bela quando vivida com amigos e amigas. Na luta contra todo fechamento, soberba e desejo de posse sobre o outro, Francisco surge como um luzeiro: chama o lobo de amigo enquanto uma cidade o amaldiçoava e vai ao encontro do sultão sem armas, então considerado inimigo da fé, e, em um abraço frutuoso, selam com a própria vida uma relação de amizade.

Encontro de São Francisco com o sultão al-Malik al-Kamil.

Talvez, em nossos dias, em meio às celebrações da amizade que se concretizam no cotidiano, seja necessário compreender que é por meio dela que entendemos o nosso lugar no mundo e aquilo que Deus nos quer revelar, pois Ele mesmo se fez amigo e companheiro de estrada. Está na hora de estreitar e dar pleno significado às nossas relações, expandindo a tenda para viver aquilo que exortava um grande amigo, o Papa Francisco, em um documento sobre a fraternidade humana: “Deus criou todos os seres humanos iguais nos direitos, nos deveres e na dignidade, e os chamou a conviver entre si como irmãos”.

Texto: Roberto Alves – SerCom do Santuário.


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