
Quem passa pelas redondezas da Praça dos Romeiros não tem como não se impactar com o tamanho e a imponência da cruz localizada atrás do altar do anfiteatro. O monumento de fé ganha ainda mais destaque durante os Festejos de São Francisco e a Coroação de Nossa Senhora, quando romeiros e fiéis lotam o espaço para as celebrações. A cruz tem 30 metros de altura, é formada por uma estrutura metálica e recebe pontos de iluminação que a destacam durante a noite.
Esse monumento de fé integra o legado deixado por São João Paulo II durante sua passagem pelo Ceará, em 1980. Na ocasião, o então Papa desembarcou no estado em 9 de julho para participar do 10º Congresso Eucarístico Nacional, a convite do arcebispo de Fortaleza, Dom Aloísio Lorscheider. O evento reuniu cerca de 120 mil fiéis no Estádio Castelão. Ao chegar à Terra da Luz, São João Paulo II repetiu um gesto que marcaria suas viagens apostólicas pelo mundo: beijou o solo cearense, em sinal de respeito, carinho e gratidão pelo povo que o acolhia. Enquanto isso, nos lábios dos cearenses ecoava o hino interpretado por Luiz Gonzaga: “O povo te abraça, em ti vê Jesus. Feliz te agradece por nos visitares, e a Cristo adorares, na Terra da Luz.”

A estrutura do Estádio Castelão já chamava a atenção por sua imponência no Nordeste, mas era necessário um símbolo que evidenciasse a dimensão da fé daquele momento. A cruz erguida no estádio veio confirmar aquele espaço destinado ao esporte e ao lazer também como um lugar sagrado, marcado pela presença e pela expressão da fé católica. O palco do esporte, se tornava naqueles dias o altar do Brasil que se reunia para celebrar a Eucaristia.
Em suas palavras iniciais, o Santo Padre abriu o coração fraterno e amigo para abraçar a todos, recordando o passado do Ceará, comprometido com os esforços em favor da Independência e da Abolição da Escravatura. Também reconheceu “os dotes do coração dos cearenses”, exaltando “a acolhedora hospitalidade; a simplicidade de espírito; a atitude intrépida diante das lutas pela sobrevivência, exasperadas pela inclemência da natureza e aspereza do clima, que não chegaram a enfraquecer, mas, pelo contrário, deram novo vigor à vossa paciência, à vossa longanimidade, à vossa proverbial coragem.”

Os caminhos do Pontífice não o trouxeram a Canindé, mas sua bênção chegou por meio de um símbolo que, na cidade franciscana, está intimamente ligado aos romeiros e devotos que, diante de suas dores e sofrimentos, encontram esperança para seguir em frente. Criada na época pelo arquiteto e urbanista Marrocos Aragão, a cruz, com sua estrutura de grande impacto visual e suas extremidades abertas, reproduz a mensagem do Cristo crucificado que, de braços abertos, faz um convite acolhedor e redentor para reunir toda a humanidade ferida ao coração do Pai.



Hoje, passados 46 anos, sob a sombra e a imponência da cruz, a fé continua viva. Ela se manifesta nas grandes celebrações religiosas, em um simples caminhar ao entardecer ou mesmo no descanso de uma rede em meio à romaria. Sua estrutura permanece ali, silenciosa, mas proclama um legado deixado por aquele que ficou conhecido como o “João de Deus”: São João Paulo II, o pastor que veio ao encontro de suas ovelhas.
Texto: Roberto Alves – SerCom do Santuário.
Fotos: Arquivo da Arquidiocese de Fortaleza e Arquivo da Paróquia-Santuário de São Francisco das Chagas.
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