Na hora da frustração ou da decepção: um olhar para São Francisco de Assis

Devoto em oração na Basílica de São Francisco das Chagas.

Quando soa o apito anunciando o fim de um jogo cuja derrota já está definida; quando a resposta para um problema ou uma enfermidade não vem da forma como esperamos; ou até mesmo quando um projeto, uma viagem ou a realização de um sonho não acontece conforme os nossos planos, surgem a frustração e a decepção. Nesses momentos, confirma-se aquilo que a psicologia afirma: toda expectativa não realizada gera frustração, assim como uma esperança frustrada pode causar sofrimento e, em alguns casos, até desespero.

Mas o que fazer diante dessas situações que, por vezes, causam tanto impacto em nós a ponto de nos tirar o sono e até desencadear manifestações físicas, como dores no corpo?

Na busca de uma resposta, voltemos o olhar para São Francisco de Assis e para a forma resiliente com que enfrentou momentos que, para muitos, poderiam ser considerados fracassos. Assim, talvez possamos encontrar um caminho de reconhecimento, aceitação e amadurecimento emocional.

Podemos recordar quatro grandes momentos de frustração vividos por Francisco, verdadeiras “noites escuras” de sua existência: a decepção diante do sonho de se tornar cavaleiro; a rejeição de seu pai após sua mudança de vida; o sofrimento causado pelas enfermidades que debilitavam seu corpo; e a preocupação com os rumos que a Ordem tomou após seu crescimento.

Embora as fontes franciscanas não descrevam esses acontecimentos literalmente como momentos de frustração, é possível perceber, em sua leitura, sinais das profundas dores que marcaram a vida do santo. Os relatos pertencem a diferentes fases de sua trajetória, mas todos revelam uma mesma atitude: a maneira como Francisco respondia às adversidades. Foi justamente essa postura que lhe permitiu crescer emocionalmente e alcançar um equilíbrio interior tão profundo que pôde orientar seus irmãos dizendo:

“Guardem-se os irmãos de se mostrarem em seu exterior como tristes e sombrios hipócritas. Antes, comportem-se como pessoas que se alegram no Senhor, satisfeitas e amáveis, como convém.”
Regra Não Bulada, VII

São Francisco foi um homem de muitos sonhos. Ainda jovem, alimentava o ideal, comum ao mundo medieval, de alcançar a glória como cavaleiro e deixar um grande legado. Contudo, viu esse projeto ruir ao experimentar a prisão, a humilhação e a incompreensão da própria família, sendo considerado louco por seu pai.

Após a conversão, seus sonhos ganharam um novo sentido: desejando apenas cumprir a vontade de Deus, acolheu os primeiros companheiros e dedicou-se inteiramente à forma de vida que o Senhor lhe revelara. Anos mais tarde, porém, já debilitado pelas enfermidades e após uma intensa missão de evangelização, retornou para encontrar uma Ordem profundamente transformada pelo crescimento. A dificuldade em conduzi-la, o receio de perder a fidelidade ao Evangelho e o sentimento de limitação levaram-no a uma profunda crise interior, culminando na renúncia ao governo da fraternidade. Em diferentes momentos de sua vida, Francisco experimentou a frustração de ver seus projetos mudarem de rumo, mas soube transformar essas aparentes derrotas em oportunidades de fidelidade ao chamado de Deus.

Como reagia Francisco diante dessas situações? Tomás de Celano responde:

“Possuindo o Espírito de Deus, era um homem preparado para suportar todas as angústias e tolerar todas as tribulações, contanto que lhe fosse dada a possibilidade de cumprir-se nele, misericordiosamente, a vontade do Pai celestial.”
Celano I, 33

É no Monte Alverne que contemplamos o ápice dessa caminhada. Ali, configurado plenamente a Cristo, Francisco recebeu em seu corpo as chagas do Crucificado e fez a mais profunda experiência da compaixão. Essa experiência lhe deu forças para suportar seus sofrimentos e conservar um coração agradecido, vivendo a chamada Perfeita Alegria mesmo em meio às dificuldades e amarguras.

No leito de morte, ao acrescentar a saudação à Irmã Morte no Cântico das Criaturas, Francisco realiza uma verdadeira celebração da vida. Reconhece que alcançou seu maior sonho: viver plenamente o amor de Deus. Ao encarar a morte, vê nela não uma derrota, mas o caminho seguro para a verdadeira imortalidade, tão sonhada pelos cavaleiros medievais. Francisco não perdeu a vida; encontrou a Vida eterna.

Ao contemplarmos essas experiências de Francisco, sentimos certo consolo e, por alguns instantes, conseguimos respirar com mais tranquilidade. Entretanto, nem sempre é simples colocar esses ensinamentos em prática, em especial quando algo mexe com a gente no dia a dia como perda em um jogo de futebol. Ainda assim, sua atitude pode nos oferecer uma importante direção: ao manter sua esperança firmada em Deus, Francisco encontrou uma força capaz de sustentá-lo mesmo nas maiores adversidades.

Por outro lado, também não devemos desconsiderar a realidade concreta que cada pessoa vive. A experiência de Francisco não deve ser vista como a única resposta para todas as dores humanas. O testemunho daqueles que venceram grandes dificuldades pode nos inspirar e fortalecer, mas nem sempre será suficiente para resolver todas as situações.

Há sofrimentos que passam rapidamente e não vão além de uma tristeza momentânea. Outros, porém, exigem mais cuidado, atenção e, muitas vezes, acompanhamento adequado para que o equilíbrio emocional seja restabelecido. Esse equilíbrio começa quando aprendemos a reconhecer e validar nossas emoções. Não pule essa etapa: ela é essencial para o amadurecimento.

Também pode ser importante fazer uma pausa, afastar-se temporariamente daquilo que alimenta a frustração e evitar permanecer buscando explicações ou culpados a todo instante. No caso do esporte, por exemplo, nem sempre vale a pena gastar energia procurando teorias ou justificativas para uma derrota. Em muitos momentos, o mais importante é conservar viva a esperança, acreditando que um sonho pode terminar em uma noite, mas a vida, a vocação e a capacidade de recomeçar continuam na manhã seguinte.

Este texto não pretende oferecer uma resposta pronta para aquilo que você sente hoje. Seu objetivo é apenas sugerir, a partir do exemplo de São Francisco de Assis, que é possível encontrar sentido até mesmo nas experiências de frustração e decepção. Francisco soube transformar suas aparentes derrotas em oportunidades de crescimento humano e espiritual. Nunca desistiu. Compreendeu que Deus também assumiu a condição humana, experimentou a dor e o sofrimento e, por isso, nenhuma lágrima é desperdiçada diante d’Ele.

Se existe uma verdadeira ideia de superação e vitória, ela não consiste em nunca cair, mas em ter a coragem de voltar ao campo depois de uma derrota, acreditando que Deus ainda pode fazer florescer novos caminhos.

Texto e Foto: Roberto Alves – SerCom do Santuário.


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